PEDIATRIA - SÍNDROME NEFRÍTICA

SÍNDROME NEFRÍTICA

As glomerulopatias podem ser divididas em: síndrome nefrítica e síndrome nefrótica. Tais se manifestam principalmente pela proteinúria, a qual qualquer quantidade presente de proteína na urina é considerada aspecto patológico.
A síndrome nefrítica é definida como hematúria (macro ou microscópica), edema (discreto ou importante) geralmente em membros inferiores e/ou periocular e hipertensão arterial (considerar para a aferição a técnica e interpretação adequada de acordo com a faixa etária do paciente). A proteinúria está presente na síndrome nefrítica, mas em pequena quantidade e não entrando na definição da síndrome.

Etiologia
A principal causa na infância ocorre pós infecção estreptocócica (90%), pelo Estreptococcus β hemolítico do grupo A (SBGA), comumente por infecções em orofaringe e de pele. Outras causas, não infecciosas, podem surgir de afecções reumatológicas, com ênfase no Lupus Eritematoso Sistêmico (LES). Devido a grande prevalência epidemiológica pela causa infecciosa, o diagnóstico é basicamente pelo caráter epidemiológico, não havendo a necessidade a princípio de biópsia (contrário do adulto devido ao maior leque de causas).

Glomerulonefrite Difusa Aguda Pós Estreptocócica (GNDA)
É um processo inflamatório agudo, de origem imunológica, que afeta os glomérulos em toda sua parcialidade e bilateralmente, sendo caracterizada como uma sequela não supurativa de uma estreptococcia.

Epidemiologia
Nas últimas três décadas vem diminuindo sua incidência e prevalência, sendo mais comum em países com baixo desenvolvimento econômico, principalmente pela relação com doenças de pele como escabiose, impetigo, entre outras. No Brasil, a doença se apresenta eventualmente em surtos.
A forma estreptocócica ocorre  na faixa escolar e pré-escolar, sendo rara antes dos 2 anos e tendo maior incidência dos 2 aos 12 anos, com pico aos 7 anos de idade. Predomina no sexo feminino (2:1) podendo ainda manifestar de forma subclínica.

Fisiopatologia
Diante a deposição de imunocomplexos (IC) ocorre a formação de imunocomplexos in situ e deposição subepitelial acarretando em uma desorganização glomerular e, consequentemente, uma proliferação endotelial e mesangial. Essa desestruturação altera a superfície de filtração levando à hematúria e, ainda, à redução na filtração, retendo líquido ocasionando o edema, hipervolemia e aumento dos níveis pressóricos arteriais. Esse edema é mais discreto uma vez que a maior parte do líquido permanece no interior dos vasos causando sintomas característicos da hipervolemia (hipertensão e, em casos mais graves, edema agudo de pulmão, insuficiência cardíaca congestiva e insuficiência renal aguda).
Geralmente este processo é desencadeado diante a baixa resistência (alteração imunológica) ou por características próprias do estreptococcus (cepas nefrogênicas).
Histologicamente falando, os podócitos são os responsáveis pelo extravasamento de hemácias (hematúria). Se a inflamação chegar ao ponto de gerar proliferação dos podócitos, denomina-se Glomerulonefrite Rapidamente Progressiva – Diagnóstico anatomopatológico, sendo essa uma forma mais grave cursando principalmente com insuficiência renal aguda. Com a proliferação dos podócitos, ocorre a invasão dos mesmos na cápsula de Bowman, achado denominado de crescente epitelial, gerando uma morfologia de “meia lua” à cápsula.

Avaliação Clínica
Por ser basicamente uma doença pós infecção de orofaringe e pele, essas duas partes devem ser avaliadas cuidadosamente, sendo que infecções estreptocócicas cursam com pontos esbranquiçados no palato. Ainda, ressalta-se que a formação de imunocomplexos ocorre aproximadamente 15 dias após o processo infeccioso e que, 1 a 3 semanas após a infecção ocorre a hematúria, edema e o quadro hipertensivo.
Clinicamente evidencia-se hematúria macroscópica, edema e hipertensão, quadro tal que dura de 2 a 3 semanas no máximo. O quadro laboratorial tem um aspecto mais arrastado, estabilizando por volta da 8ª semana.
A presença de hematúria macroscópica acima desses limites é um indicativo para a realização da biópsia.

Laboratorial
Os exames laboratoriais a serem solicitados são:
a) Urina tipo I: buscando a hematúria. Caracteriza-se com densidade preservada; leucocitúria e proteinúria variável; cilindros hialinos leucocitários e hemáticos; dismorfismo eritrocitário presente. Pode haver da hematúria estar presente microscopicamente até 1 a 2 anos após o quadro não sendo considerado patológico;
b)Anticorpos anti estreptocócicos: ASLO; Antiestreptolisina. São inespecíficos, assim, não fecham o diagnóstico;
c) Complemento sérico: fecha o diagnóstico. A grande característica laboratorial da GNDA é a diminuição do complemento sérico;
d) HMG, Ureia e Creatinina: avaliação da função renal.
            Se após a 8ª semana apresentar quadro com complemento sérico baixo, significa que o mesmo está sendo ativado, assim, concluindo que ainda há imunocomplexos circulantes. Nesta situação e concomitante à ausência do SBGA, trata-se de uma doença autoimune em que os imunocomplexos estarão permanentemente presentes – LES, doenças do complemento. Assim , realiza-se a biopsiar para fazer o diagnóstico diferencial.

Biópsia 
Na biópsia com imunofluorescência evidencia-se um padrão granular (depósitos). À biópsia, um rim volumoso com depósitos e proliferação celular; entumescimento do rim e perda dos espaços em branco normalmente presentes. À microscopia eletrônica evidencia-se a fusão dos podócitos e o depósito dos imunocomplexos. Rotineiramente faz-se a microscopia óptica e a imunofluorescência. 
São indicativos para a biópsia: 

  • hematúria macroscópica por mais de 3 semanas;  
  • evolução de caráter inesperado;  
  • clínica aberrante;  
  • complemento permanentemente baixo após 8 semanas;  
  • hematúria microscópica por mais de 2 anos;  
  • falha terapêutica (procurar outras causas). 

Tratamento 
A doença tem um caráter autolimitado ao qual 80% das crianças revertem apenas com medidas comportamentais, porém, podem haver complicçaões. Pensando nisso algumas medidas podem ser tomadas. a) repouso: autolimitado de 7 a 14 dias evitando esforço físico uma vez que tal atividade pode agravar a hematúria; 
b) restrição de ingesta hídrica: reduzir danos relacionados à hipervolemia. Restringir a uma ingesta de 20 ml/kg/dia ou 400 ml/m2 ; 
c) restrição ao sódio: evitar agravos hipertensivos e edemaciais – aferir pressão de 2 em 2 dias; 
d) restrição proteica e de potássio: se houver insuficiência renal. 
Diante a causa base, denota-se a necessidade de avaliar e/ou tratar a infecção estreptocócica. Geralmente é usado na terapia penicilina benzatina DU (paciente < 25 kg 600.000 UI; > 25 kg 1.200.000 UI) ou amoxicilina 30 mg/kg/dia VO 7 a 10 dias. Rotineiramente é prática tratar crianças contactantes. Tratamento das complicações De acordo com as complicações presentes, medidas devem ser tomadas: a) hipertensão: diurético (furosemida) e vasodilatador (BCC e IECA); b) congestão circulatória: furosemida 4 mg/kg/dia IV; c) edema agudo de pulmão: tratamento dialítico; d) encefalopatia hipertensiva: nitropussiato de sódio IV na UTI; e) hipercalemia: resinas de troca catiônica 1g/kg/dose VO ou retal; bicarbonato de sódio 1 a 2mEq/kg IV; gluconato de cálcio a 10% 0,5 a 1ml/kg IV em 5 a 10 min.; salbutamol IV ou inalatório; glicose-insulina 0,5 a 1g/kg de glicose com 1U de insulina por cada 4g de glicose (em solução a 10%), a infusão deve durar 30 a 60 minutos; 
f) tratamento dialítico: é o melhor método, mas até o preparo outras medidas podem ser tomadas. 

Corticóide 
Indica-se essa terapia para paciente com Glomerulopatia Rapidamente Progressiva. Para tal, pulsoterapia com metilpredinisolona 30 mg/kg/dia (dose máxima de 1g) de 3 a 5 dias. 

Prognóstico 
A evolução é boa a longo prazo. Normalmente não há evolução com complicações. Não há recidiva.